Da estrela cadente à pele: o artista que transformou a tatuagem em símbolo, arte e mistério
Antes mesmo de descobrir a tatuagem, ele já havia feito um pacto com o universo.
Aos sete anos, sentado em uma calçada durante uma noite no Piauí, olhou para o céu e viu uma estrela cadente. Naquele instante, fez um pedido que poderia parecer grande demais para uma criança: queria ser o maior artista do planeta.
Décadas depois, a frase continua ecoando na trajetória de Gil — um artista que encontrou na tatuagem muito mais do que uma profissão. Para ele, a pele tornou-se tela, o desenho transformou-se em linguagem e cada pessoa que chega ao seu estúdio carrega uma história que precisa ser compreendida antes de ser marcada.
“Eu sempre fui um cara muito aventureiro, animado, sorridente. Sempre desejei mudar a vida. Acho que, por conta da separação dos meus pais, procurei enxergar a vida por outro foco, acreditando que tudo é possível”, conta.
A vocação artística apareceu cedo. Influenciado pelo amigo e vizinho Bilu, que desenhava, começou a experimentar os próprios traços. Mas foi ao conhecer as histórias de Conan que percebeu que a arte poderia ser um caminho.
“Quando eu vi aquela capa pintada por mãos humanas, pensei: se ele fez, eu também posso fazer. O Conan foi minha grande faculdade de arte.”
Uma máquina, um amigo e uma nova vida
A tatuagem entrou em sua vida quase por acaso.
Em 1995, Gil conheceu Marcelo Borges, amigo que acabaria sendo decisivo naquele momento. Marcelo e outro rapaz haviam desmontado uma pequena máquina, adaptando um motor de toca-fitas para criar uma máquina de tatuagem.
Gil já possuía pastas repletas de desenhos. Um dia, Marcelo pediu que ele emprestasse o material. Quando chegou à casa do amigo, encontrou uma cena inesperada: Marcelo estava se tatuando.
“Eu perguntei: ‘O que você está fazendo, cara?’. Ele respondeu: ‘Estou me tatuando’. Peguei a maquininha e comecei a tatuar.”
Era o começo de uma trajetória que chegaria aos 31 anos.
O curioso é que aquele início improvisado não diminuiu a dimensão artística que a tatuagem ganharia em sua vida. Pelo contrário. Ao longo dos anos, o desenho deixou de ser apenas uma imagem e passou a ser, para ele, uma espécie de código.
Quando a tatuagem deixa de ser apenas desenho
Gil não acredita que uma pessoa deva necessariamente chegar ao estúdio sabendo exatamente o que quer tatuar.
Antes do desenho, vem a conversa.
Ele procura conhecer a trajetória, os desejos, a personalidade e aquilo que a pessoa está vivendo. A partir daí, começa a construir uma interpretação visual.
“Eu gosto de ter uma conversa com cada pessoa que vou tatuar. Procuro entender a trajetória de vida, o que ela está manifestando para a vida.”
É nesse ponto que sua visão artística encontra seu lado místico.
Gil conta que estuda símbolos, códigos, espiritualidade e diferentes manifestações ligadas ao comportamento humano. Também relata experiências que considera relacionadas ao subconsciente, sonhos precognitivos e percepções que, segundo ele, ultrapassam aquilo que normalmente conseguimos compreender.
Para ele, esses elementos fazem parte de um processo criativo que ainda está em constante investigação.
“Eu venho fazendo certo tipo de pesquisa e estudo. Estudo alguns símbolos, alguns códigos, espiritualidades, tudo que pode imaginar relacionado aos seres humanos e ao despertar do ser humano.”
Mais do que afirmar respostas definitivas, sua trajetória revela uma inquietação: a vontade de entender até onde a arte pode chegar quando encontra a mente humana.
A tatuagem como símbolo de transformação
A ideia ganhou ainda mais força depois de uma conversa com uma amiga, Adriana.
Ela fez uma pergunta que, segundo Gil, está entre as mais inteligentes que já recebeu: uma tatuagem poderia mudar a personalidade de alguém ou ajudar uma pessoa a mudar sua vida?
A resposta dele foi imediata: sim.
A partir dessa perspectiva, a tatuagem deixa de ser apenas estética. Torna-se símbolo. Uma representação física de algo que a pessoa deseja manifestar.
“Eu entendo perfeitamente que a tatuagem pode ser utilizada como símbolo de poder, um símbolo operacional dos nossos grandes e profundos desejos, das infinitas possibilidades para a nossa vida.”
É uma filosofia que também o leva a questionar a escolha inicial de seus clientes.
Segundo ele, em alguns casos, a pessoa chega acreditando querer determinada tatuagem, mas muda de ideia depois de conversar e compreender melhor aquilo que realmente busca para a própria vida.
Entre o polvo, o rock e uma criação que ganhou o mundo
Entre tantas histórias, uma das mais emblemáticas envolve o baterista Aquiles Priester.
Por volta de 2002, Gil já era amigo de André Monet, que fazia aulas de bateria com Aquiles. Na época, Aquiles era baterista do Angra e já era conhecido pelo apelido de “Polvo”.
Foi justamente uma tatuagem de polvo que aproximou os dois universos.
A partir daquele trabalho, surgiu também a criação de uma máscara que se tornaria parte da identidade visual do músico.
“Eu acabei criando a máscara do Aquiles Priester.”
A história mostra uma das características mais importantes do trabalho de Gil: sua capacidade de transformar uma referência em algo novo.
O desenho não termina necessariamente na pele. Pode ganhar palco, identidade, personalidade e até se tornar parte da história de um artista.
Cambuci, arte e a energia de quem cria
A relação com o bairro também faz parte dessa construção.
Para Gil, Cambuci possui uma identidade própria e uma energia artística que não pode ser ignorada.
“Eu sinto a energia e o poder de alguns artistas do bairro. Existe uma força criativa muito grande nessas pessoas e nesse lugar.”
Mas sua curiosidade não termina nas fronteiras do bairro.
“Quando penso na existência de tantos planetas e na imensidão desse cosmos, percebo que o universo é muito maior do que aquilo que conseguimos enxergar.”
É justamente essa percepção de infinito que alimenta sua busca por novas referências.
Uma mente em permanente movimento
Em uma época em que as redes sociais aproximaram artistas de milhões de referências, manter uma identidade própria pode ser um desafio.
Gil prefere outro caminho: pesquisar.
“Eu faço isso constantemente. Estou sempre criando, pesquisando e buscando novidades no campo mental, novas possibilidades de percepção e de expressão.”
Sua intenção, segundo ele, é também provocar quem está ao redor.
“Gosto de explorar técnicas e ideias que possam despertar algo nas pessoas. Para mim, a arte também é uma forma de provocar a mente, abrir possibilidades e fazer com que cada pessoa enxergue a si mesma e o mundo de uma maneira diferente.”
Talvez seja justamente aí que esteja a essência de seu trabalho.
A tatuagem começa na pele, mas sua proposta artística pretende alcançar algo mais profundo: a maneira como uma pessoa se enxerga.
E se fosse possível tatuar uma única mensagem na humanidade?
Depois de 31 anos tatuando histórias, símbolos, personagens, desejos e identidades, a pergunta final parece simples, mas encontra uma resposta carregada de significado.
Se pudesse tatuar uma única ideia em todas as pessoas do mundo, qual seria?
A resposta vem em uma palavra.
Amor.
“AMOR. Eu tatuaria — e tatuo — com muito amor. O amor é a única coisa capaz de mudar e capaz de atrair absolutamente tudo que desejarmos.”
Mas ele vai além.
Sua maior obra talvez não esteja em um desenho específico, nem em uma criação famosa. Está naquilo que gostaria que cada pessoa fosse capaz de encontrar dentro de si.
“Eu gostaria que elas olhassem para dentro de si e falassem: ‘EU SOU UMA BOA PESSOA’.”
Talvez essa seja a tatuagem que não precisa de tinta.
Uma frase que não precisa estar na pele para permanecer.
Aos sete anos, Gil olhou para o céu e pediu para ser um grande artista.
Aos 31 anos de profissão, continua procurando respostas entre a arte, a mente, o símbolo, o cosmos e o ser humano.
E talvez o pedido daquela criança ainda esteja sendo realizado — não porque ele tenha encontrado uma única resposta, mas porque nunca deixou de procurar.

