SOMOS BÁRBAROS?

Assisto, com tristeza extrema, aos noticiários da “operação militar especial” (assim mesmo minúsculo, pelo desrespeito à inteligência humana que a audácia representa), dando conta de mais uma demonstração de estupidez humana revestida de poder. Uma operação que se não limita a alvos militares, que destrói cidades inteiras, incluindo hospitais, vilas, vilarejos, prédios residenciais, escolas, estações de trem e tudo que há pela frente do brinquedo com que se deleita quem falseia a verdade dizendo querer preservar sua soberania. Os que conseguiram fugir contam-se já aos milhões, despedaçados, desorientados, desfeitos em suas crenças, perdidos em divisar o futuro, e os que não conseguem fugir ficam retidos em porões escuros e desprovidos de qualquer condição de habitabilidade.  Se isto não é uma guerra, pobre de nós todos quando for.

Sei que estou a falar, tão-só, de drama antigo da Humanidade, mostrando desumanos os agentes que dele participam, promovendo-o ou simplesmente executando as ordens que muitas vezes nem entendem. Mundiais foram duas, mas há guerras sempre, em diferentes polos do mundo, muitas até que nem chegam a receber os destaques que a comunicação moderna pode conferir. Proclamo, pois, que não pretendo lançar aqui demonstração de inocência.

Seja qual for, a guerra é, a meu modesto juízo, forma medieval de mostrar a fragilidade humana, ressaltando quanto somos incapazes de evoluir para transformar em preceito obrigatório o respeito a semelhante nosso. Somos bárbaros?

As desculpas encontradas para demonstrações desvairadas de poder são, historicamente, as mesmas, falando de poderio econômico, de subjugo, de ostentação  e de defesa do direito de defender-se preventivamente. E há um prazer mórbido em proclamar o quanto é capaz de destruir. E, curioso, o que destrói cidades inteiras “não pode” ser atacado em seu território, e é como ameaça o Planeta.

Por mais que busque, não consigo encontrar razões para a desumanidade da guerra. Qualquer que seja, mesmo as que não se fazem com mísseis controláveis a distâncias inimagináveis, comboios quilométricos de tanques pilotados por inocentes úteis, aviões que conseguem voar sem ser vistos pelos mais modernos equipamentos, tal como submarinos que trafegam no fundo dos oceanos sem que o “olho” adversário os encontre. Há no mundo guerras mudas, com igual capacidade de destruição, como a fome, a droga, o desrespeito às escolhas humanas, os conflitos urbanos das balas perdidas, o abandono e a exploração de crianças e de idosos. E por essas passamos todos, diariamente, sem com elas nos importarmos, como se a nós também não nos dissessem respeito, Somos bárbaros?

Estamos todos vencendo, afinal, ao que tudo indica, uma guerra contra um vírus maldito que se impôs à humanidade com a força de um Czar moderno, matando aos milhões, cá entre nós até por asfixia à conta de inexistência do que há de mais primário para a condição humana: o oxigênio. (Não podemos, os que moramos no Amazonas, esquecer da guerra por muitos perdida pelos que precisavam apenas de respirar). Depois da gripe espanhola, do início do século passado, nenhum registro igual na História da Humanidade.

Em todos os quadrantes do planeta, os hospitais foram insuficientes para abrigar os que os buscavam, tal a violência do inimigo comum. E todos ficamos com medo, torcendo e, certamente, rezando para que o inimigo não nos encontrasse e não nos levasse para a UTI, para respiradores que às vezes nem passavam de ventiladores, como em Manaus, ou que nem havia, como no Interior de boa parte dos Estados brasileiros. Era como se o mundo tivesse parado, tal como deve estar acontecendo na Ucrânia de agora, como se deu no Haiti de há pouco, na Síria ou na Crimeia, para não ir além. A destruição não tinha pátria. Haja guerra!

Em meio ao medo e ao horror, eis que homens e mulheres dedicavam suas vidas, expunham-se ao perigo, para tratar dos que, em desespero, conseguiam chegar aos leitos hospitalares. Anjos em doação permanente. Em outra trincheira, os que desafiavam a Ciência e o tempo e, indormidos até, nos laboratórios, com seus microscópios mágicos, seus livros, seus tubos de ensaio, seus computadores e, principalmente, sua determinação e seu compromisso, buscavam formas e fórmulas para combater o inimigo que só avançava em territórios todos. E foi tal a dedicação, o sacrifício de horas a dormir, de tempo com a família e consigo mesmo, que, mercê da bondade divina, em tempo recorde, esses guerreiros construíram vacinas para, mundo afora, salvar vidas. Santa guerra do Bem! Assim é que, nos quatro cantos do mundo, pelo  menos onde foi possível comprar ou chegar, por doação, o antígeno salvador, a raça humana deste tempo viu-se aliviada do medo, da dor e da morte.

Foram heróis que sabiam o que precisavam fazer e o motivo pelo qual haviam de dedicar-se, horas a fio, a estudar para produzir o remédio que salvaria a vida. Diferente  dos que vão para o campo de batalha, na guerra de infantaria, para os aviões ou para os submarinos com a obrigação de acionar armas mortais, só porque assim lhes foi determinado. Entre uns e outros um elo há em comum: não conhecem os que salvam ou os que matam.

Pois bem, o presidente da Rússia vem de condecorar, com medalhas de honra ao mérito, os soldados que, na Ucrânia, cumpriram suas ordens. Isto é, os homens que mataram seus semelhantes, sem nem mesmo saber o motivo. Enquanto isto, a Humanidade não entregou mimo, medalha ou homenagem aos que, construindo vacinas, salvaram vidas.

Somos bárbaros?

Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

lourencodossantospereirabraga@hotmail.com

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