Lembranças juninas

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

Junho, mês que encerra o primeiro semestre do ano, é, desde há muito, tempo de festa, de congraçamento, de folclore, de pastorinhas, de cirandas e de bumbás, de fogueiras, de simpatias e de sonhos. Brasil afora é assim, com cada cidade, cada Estado, cada povo preservando suas tradições, exibindo, festejando e ensinando o que aprendeu de seus ancestrais.

Pois bem, neste dia de São João, dou-me a lembranças de folguedos e de tradições em sua honra, tal como de São Antônio e de São Pedro. E convido o leitor a lembrar comigo ou a simplesmente sonhar.

Quando criança, no Boulevard Amazonas, hoje Avenida Álvaro Maia, ouvia de minha mãe histórias de simpatias que, como suas amiguinhas jovens, realizara, com água posta em uma bacia ou  em copo transparente, sobre pedaço de linho branco, onde faziam cair gotas de velas acesas e esperavam que ali se formasse a letra que, segundo a crendice, corresponderia à primeira do nome do príncipe encanado tão carinhosa e fogosamente esperado. Era  véspera de Santo Antônio, o anjo católico casamenteiro, e Sebastiana ficou preocupada ao ver a letra L na “simpatia” que fizera ao lado da irmã Maria Rita, até por não conhecer nenhum mancebo cujo nome assim começasse. E sempre que contava a experiência, seus olhos brilhavam ao dizer que tempos depois conheceu Lourenço, ao lado de quem acabou por construir e viver um amor de mais de meio século. 

Ainda hoje há quem realize simpatias pedindo a Santo Antônio, no 12 ou em seu próprio dia 13, que abençoe relações de namoro e de noivado e que facilite a realização do desejado enlace matrimonial. E a crendice faz o ícone do santo posto de cabeça para baixo, no congelador da geladeira, em vasilha com água, em canto da sala, amarrado, preso atrás de grades, até mesmo com a retirada da imagem de Jesus de entre seus braços. Pobre Santo Antônio!

Havia fogueiras cuidadosamente preparadas com achas de lenha ou até com cavacos de madeira, as mais humildes e que queimavam mais rapidamente, em torno das quais faziam-se muitas brincadeiras, além das simpatias como a de Sebastiana. Havia o “pular fogueira”, com pares que saltavam  por sobre o fogo e, ao se encontrarem do outro lado, até podiam iniciar um pequeno flerte (um namorico, uma paquera, um crush, na linguagem de hoje). Podia-se também apenas “passar fogueira”, que consistia em cada um,  em pares, caminhar por um lado das chamas e, ao se encontrarem os dois do outro lado, virarem compadres e comadres. E tudo se fazia com a crença de que “Santo Antônio disse, São João confirmou que haverás de ser … que São Pedro mandou”. (Ser meu namorado, minha namorada, meu compadre, minha comadre)…  Quanta beleza!

Ali ao lado do Boulevard, no que se conhecia como Seringal Mirim, havia o famosíssimo bumbá “Mina de Ouro”, dos irmãos Serra (um dos quais foi respeitável árbitro de futebol), com os brincantes ostentando fantasias cuidadosa, carinhosa e demoradamente preparadas, os Vaqueiros, o Rapaz e o Amo usando chapéus com franjas e adornados por espelhos que faziam cintilar o luar das noites, os índios, a Catirina, o Pai Francisco e o Cazumbá, todos que, depois da apresentação, pelo Amo, e após ser o bumbá laçado por um dos hábeis vaqueiros,  encenavam a morte do boi e a “venda” da língua para o dono da casa onde se exibiam. A toada “chico-tira-a-língua” e as muitas outras cantadas por todos os brincantes, constituíam verdadeira ópera popular a céu aberto. Era assim, também, com seu rival, o bumbá “Corre Campo”, de fama igual no bairro da Cachoeirinha e que reinava ali e nos arredores, incluindo a Praça 14 e até os Educandos.

Bianor Garcia, caboclo de Silves que chegou a ser Vereador em Manaus, jornalista que se especializou na difícil arte de construir manchetes para os jornais em que trabalhou – tal como fazia Frânio Lima, do Jornal do Comércio, que certa feita disse, a respeito da correção de ganhos do trabalhador, em edição de 1º de maio: “Saiu o novo salário: é mínimo” –  passou a coordenar o Festival Folclórico do Amazonas –  criado  por Mário Ypiranga, nos anos de 1940, segundo ensina Robério,  e retomado pelos Archer Pinto, de “O Jornal” e “Diário da Tarde” – que se realizava no campo do estádio General Osório, em frente ao  quartel do 27º Batalhão de Caçadores, onde hoje funciona o Colégio Militar do Exército, ali na avenida Epaminondas, começando na esquina da José Clemente e terminando junto ao muro lateral do Colégio “Dom Bosco”. No centro do gramado fazia-se erguer um grande palco, em madeira de lei, com acesso por larga rampa e forte o suficiente para suportar o peso dos blocos e das danças que lá se apresentavam, incluindo pulos impostos por muitas e diferentes coreografias. Foi lá que José Braga – hoje Desembargador Federal e Presidente do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, membro da Academia Amazonense de Letras – dirigiu e apresentou  danças folclóricas com alunos do Instituto de Educação do Amazonas, onde era Professor de Português, para disputar prêmios com outros colégios que também para ali levavam histórias de honra a costumes e crenças de nosso povo. 

Pelo IEA cheguei a participar do “Jacundá”, do “Imperial” e da “Dança do Aro”, e  José passou a contar com a colaboração, desde os ensaios, dos professores Garcitylzo do Lago e Silva e Alfredo Fernandes, este a quem Robério e eu homenageamos construindo e equipando um teatro, que destruíram, com seu nome, anexo ao prédio da Secretaria de Administração  do Estado, próximo da Assembleia Legislativa. 

A Escola Técnica Federal, que deu origem ao IFAM, apresentava o “Cacetinho”, ainda hoje encenado em muitos festivais, como o da Escola Estadual “Marquês de Santa Cruz” ou o do Centro Social Urbano do Parque Dez. O Colégio Estadual levava a “Dança do Congo” ou o “Tipiti”, de origem indígena que faz os brincantes construírem belos desenhos com o trançar de fitas presas a um tronco de madeira, no centro, em demonstração rica de balé popular. Tudo se fazia sob os aplausos de encantamento de numerosíssima plateia que acorria ao local para festejar Santo Antônio, 12 e 13, São João, 23 e 24 e São Pedro, 28 e 29. Em noites distintas, apresentavam-se os bumbás, que levavam suas torcidas para o Festival.

No dia 30 de junho, muitos acendiam em suas ruas fogueiras feitas com paneiros (cestos de palha trançada), em homenagem a São Marçal. Era o “day after” do encerramento oficial no dia do “dono das chaves do céu”.

Assim também se dava no Interior do Estado,  com festas e danças folclóricas que se podem dizer próprias de cada região, lembrando nossos ancestrais, nossos costumes, nossas crenças e nossas crendices, que Manacapuru, por exemplo, preserva  com a bela festa das Cirandas, e Parintins, que realiza inigualável Festival, desde alguns anos a maior fonte de arrecadação do município, atraindo turistas de todo o planeta. “Mina de Ouro” e “Corre Campo”, de meus tempos de menino, que ainda existem no Festival Folclórico de Manaus, terão dado origem, talvez, aos inigualáveis “Garantido”, da nação vermelha da Baixa do São José, e “Caprichoso”, do povo azul  de Simão Assayag, que encantam na velha Ilha Tupinambarana, por tantos cantada em toadas como as de Chico da Silva e que consagraram Arlindo Júnior, David Assayag, Sebastião Júnior e os irmãos Paulaim, dentre tantos.

Feliz o povo que cultua e preserva as tradições que recebe por herança!

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