LEMBRANÇAS DO IEA

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

Na segunda metade do século XIX, preocupava governantes a qualidade da educação no Estado, principalmente aqui na Capital, onde estava a quase totalidade das escolas da rede pública, e foi assim que, em novembro de 1880, o Presidente da Província Alarico José Furtado criou, em ato próprio, a Escoa Superior Normal, nomeando Epifânio José Pedrosa como seu primeiro Diretor. Chegou a funcionar no prédio do Lyceu Provincial, hoje Colégio Amazonense Dom Pedro II, de onde saiu para o Orfanato “Elisa Souto”, retornando em 1890, com o nome de Instituto Superior Normal. Em 1911, novamente separou-se do Gimnásio Amazonense e, sob a direção do professor Benjamym Ferreira Vale, passou a ocupar salas do Congresso Amazonense. Dali mudou-se, em 1933, para o Centro Cultural Palacete Provincial, até passar para sua sede, construída em 1944 pelo Governador Álvaro Botelho Maia,  na Avenida Ramos Ferreira, praça Antônio Bittencourt, que marca o final da avenida Eduardo Ribeiro. Edifício que no início da construção deveria servir para abrigar a sede do Governo do Estado. Na Escola Normal estudou Sebastiana Braga, formando-se Professora Normalista, como todos os que impulsionaram, anos seguidos, a educação primária, hoje conhecida como  ensino fundamental, e trabalharam vultos importantes de nossa história política e social, como Adriano Jorge e Agnelo Bittencourt, fundadores de nosso Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas, a que  hoje pertenço com honra extremada,  e que Agnelo   presidiu por mais de uma década. 

Cheguei ao Instituto de Educação do  Amazonas, nosso IEA, para cursar a 2ª série, com minha mãe, que resolvera transferir-me, fazendo recomendações especiais a meu respeito à Diretora Lila Borges de Sá, sobretudo quanto à disciplina. E de pronto ouvi vasto “sermão” da nobre mestra, que assumia solene compromisso de me enquadrar nas rígidas regras da Instituição, o que terminou por acontecer, de fato.

Fui para a turma “A”, no turno da manhã, e ali encontrei, além de outros,  Evandro Paes de Farias, filho da professora Otília,  meu subsecretário de Administração, diretor-presidente do  Instituto de Cooperação Técnica Intermunicipal, Promotor e Procurador-Geral de Justiça; Arthur Virgílio Neto, ex-prefeito de Manaus, com quem trabalhei como Procurador-Geral, nos idos de 1972, e como Chefe da Casa Civil, mais recentemente, por dois anos; Ana Monteiro, da família proprietária das Lojas S. Monteiro; Beatriz Castro e Costa, a Baby Rizzato hoje rainha de nossa Imprensa, filha do jornalista Herculano Castro e Costa; José Cabral Jafra, Diretor da Penitenciária Central do Estado quando estive Secretário de Justiça;  Clarice Zita da Silva, a melhor aluna de Matemática, destacada nas aulas do Mestre Aristóteles Comte de Alencar, e que se dedicou ao Magistério, professora de gerações desde o Instituto Chrystus, do Orígenes Martins e do Carlos Eduardo Gonçalves; Benvinda Melo Nogueira, também professora e a quem homenageei com o nome em uma das salas do edifício Mário Ypiranga Monteiro,  da Escola Normal Superior da Universidade do Estado do Amazonas, de que tive o privilégio de ser o primeiro Reitor; Alberto Sabbá, filho de Isaac Sabbá, empresário a quem muito deve o Amazonas  pela coragem de criar aqui a primeira refinaria de petróleo da Região Norte; Ricardo Braga, filho de um dos sócios de Braga & Cia, com loja de departamentos na avenida Eduardo Ribeiro, hoje importante grupo empresarial no ramo de venda de veículos automotores e família a que pertence o atual Senador da República, ex-prefeito de Manaus e ex-governador Eduardo Braga, com quem trabalhei; Carrel Benevides, que foi vereador em Manaus e deputado federal constituinte pelo Amazonas; Fausto Pinheiro, médico de grande prestígio no Rio de Janeiro, cujo irmão era dono do Cartório que levava o nome da família; Eugênio Hauradou, o mais velho da sala, já com 18 anos de idade e que viria a ser diretor do Atlético Rio Negro Clube, um dos mais importantes da Cidade, todos de minha estima pessoal e de quem guardo boas lembranças e respeito.

O professor João Chrysóstomo de Oliveira criou, para fazer funcionar  nas turmas em que lecionava, o Grêmio de Estudos e Defesa da Língua Pátria – GEDELPA, incentivando-nos a realizar concursos de oratória,  que cheguei a disputar, júris históricos que também serviam para desenvolver nossa capacidade de falar em público, e, no âmbito da escrita, conduziu-nos a criar o jornal “A Voz do GEDELPA”, que imprimimos por três vezes na gráfica do jornal A Gazeta,   vespertino de propriedade do jornalista Áugias Gadelha, tio do Arthur, onde depois seria repórter, redator, revisor e secretário Frânio Lima, também aluno do Instituto de Educação do Amazonas, subsecretário de Justiça, professor dos cursos de Jornalismo e de Direito da UFAM e meu colega como Procurador do Estado, cujo órgão chegou a dirigir. Nosso jornal continha publicações de muitos dos colegas de turma, em forma de reportagem, de entrevista e até de poesia, e parte dos custos da publicação era suportada por anúncios de lojas locais.

O Pedagógico cursei à noite e ali encontrei Newton São Paulo, proprietário de Ótica com o nome da família, Francisco Pugga Barbosa, depois professor do curso de Educação Física da UFAM, Roberto Meira Torres, um dos diretores do Instituto Cultural Brasil-Estados Unidos, Sílvio Vieira e seu irmão Roberto dos Santos Vieira, Secretário de Planejamento do Estado e Reitor da Universidade Federal do Amazonas

Eddigton Reis Maia foi Presidente do Grêmio Estudantil “Marciano Armond” – depois transformando-se em prestigiado médico na Bahia –  passando o comando político para Cláudio Graça d’Almeida e o legado, que também incluiu Marcondes Luniére,  acabou por chegar a Lauro Henrique Pinheiro Machado, do grupo a que pertenciam os irmãos Carrel e Alexis Benevides, além de Sebastião Gonçalves Guimarães, Albaliz e muitos outros. Nesse tempo fui Diretor do Curso de Preparação para o Exame de Admissão,  promovido pelo Grêmio. Depois, fomos disputar a União dos Estudantes Secundaristas do Amazonas, em Congresso que convocamos, apoiados pela maioria dos colégios religiosos (Dom Bosco, Auxiliadora, Doroteias, Benjamin Constant, Santa Terezinha), com outros do Interior. A chapa que elegemos teve Ary Brandão de Oliveira como Presidente, Edson Oliveira vice-presidente, Albaliz Secretária-Geral e eu fui, então, primeiro secretário de nossa UESA. O grupo político de Amazonino, que antes elegera Tarcila Prado Negreiros presidente, em pleito disputado com Manoel Neuzimar Pinheiro, desembargador agora aposentado, foi realizar um congresso na cidade de Parintins e de lá retornou com diretoria presidida por Paulo Figueiredo. Fomos os dois comandos para o Congresso da União Brasileira de Estudantes Secundaristas em Pelotas, no Rio Grande do Sul, e a UBES terminou por reconhecer ambos, proclamando que a questão local a nós nos competia resolver, o que só aconteceu no ano  seguinte, com a reeleição do Ary Brandão, depois Juiz do Trabalho em Belém.

Foi nessa época que  José Braga, professor de Português no curso Pedagógico, depois com  a colaboração dos também mestres Garcitylzo Silva, de Ciências, e Alfredo Fernandes, de Desenho,  passou a organizar grupos de danças para representar o Instituto no Festival Folclórico do Amazonas, realizado pelo Bianor Garcia no campo do General Osório, para onde levamos, em anos distintos, o Jacundá, o Imperial e a Dança do Aro.

O desfile estudantil de 7 de setembro era bela festa cívica que se dava na Avenida Eduardo Ribeiro e as escolas para ele se preparavam desde o início das aulas do segundo semestre, no primeiro dia útil de agosto. Quando cursei o segundo ano do Pedagógico desfilei na Banda Marcial, que rivalizava com a do Colégio Estadual e, principalmente, a da Escola Técnica, e no ano seguinte, prestes a receber o diploma de Professor Normalista, fui alçado à importante e cobiçada condição de Comandante da Escola, responsável por lhe dar voz de comando em frente ao palanque oficial e por prestar reverência, espada desembainhada, em ritual próprio e solene, ao Governador do Estado Plínio Ramos Coelho.

Nossa diplomação deu-se em solenidade realizada no Teatro Amazonas e tenho viva na retina a emoção de meu pai, também Lourenço, ao me entregar o canudo e me recomendar que honrasse a obrigação que ele representava. Nosso baile, com pompas e valsa que dancei com Sebastiana, minha mãe, foi no Atlético Rio Negro Clube, o mais luxuoso da Cidade, mercê de generoso patrocínio de Josué Cláudio de Souza, Prefeito de Manaus.

Belas lembranças!

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *