HUMILDADE

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

Este ano, cuja primeira metade vem de encerrar-se na última quinta-feira, haverá de ficar marcado na história da humanidade como de farta exibição do poder humano de destruir, com a Europa assistindo atônita à invasão progressiva e violenta da Ucrânia, deixando o povo dali a mercê da morte, da fome, da sede, do desencanto, do desencontro, da separação de famílias, do abandono de sonhos e do quanto cada um possa haver construído até por longo tempo de vida. A razão? Se é que se pode encontrar uma para a brutalidade do Homem em níveis dessa espécie, o aumento do poderio russo com a desculpa da proteção de suas fronteiras e, mais importante, a afirmação pessoal de quem, formado desde cedo por órgãos de defesa interna, parece ter sido excelente aluno em aulas de táticas e de técnicas de ataque, assim como de manutenção pessoal em comando ditatorial.


Contam-se aos milhões os que, vítimas da barbárie, foram obrigados a abandonar sua pátria, na difícil escolha da preservação da vida, enquanto a sanha destruidora parece não ter fim e foge a qualquer controle. Igrejas, escolas, creches, hospitais, estações de metrô e de outras espécies de transporte público, tudo tem sido alvo da maldade e da absoluta falta de compaixão de quem ordena as invasões, a tomada de território, a matança indiscriminada de militares e de civis, de adultos e de crianças, de idosos e de deficientes, bastando que, “por pura teimosia”, estejam na chamada “linha de tiro.” Afinal, que importam vidas humanas?
É a exacerbação, a píncaros inimagináveis, da vaidade. Haverá, por certo, no sentimento de vitória, ao final de cada dia, de cada batalha, de cada destruição, mórbido prazer no interior de cada “comandante”, assim como, e muito mais, do comandante-em-chefe que se há de vangloriar, entre assessores acostumados a aplaudir, como costuma existir, proclamando sua força e sua competência para a “defesa de seu povo’. E não serão poucos os que aplaudem, alguns até que com ele dividem bebidas refinadas por certo degustadas ao final de cada ágape de comemoração. Será, talvez, como se bebessem o sangue dos que mataram à distância, tripudiando sobre os sonhos que fizeram também morrer.


E o que tudo isso tem a ver com o tema que escolhi para essa crônica?


A partir da consideração de que o antônimo da guerra é a paz, penso, com perdão antecipado de psicólogos e demais profissionais que se possam ver envolvidos em tão rasteira análise, que o contraponto da vaidade é a humildade, que Jesus Cristo, este sim o verdadeiro Libertador, ensinou em palavras, entre parábolas muitas, em exemplos de comportamento como o de lavar os pés de seus principais seguidores, apóstolos de suas pregações, ou ao dizer que no Reino posterior não serão os primeiros aqueles que, na vida terrena, fazem questão das primeiras cadeiras, a molde de exibição de “prestígio”, ou os que bradam, alto e bom som, simples e raros gestos de atenção que chegam a considerar esmolas a necessitados.


Há no mundo terreno, e felizmente não são poucos, os que, sozinhos ou agrupados em instituições privadas, entregues ao anonimato, realizam ações de assistência a necessitados – esquecidos da sociedade, e até por ela vitimados, moradores de rua ou de cracolândias espalhadas pelas cidades – atitudes de solidariedade e de divisão, vezes até do muito pouco de que dispõem. Bem por isso que nosso Betinho, sociólogo brasileiro de saudosos exemplos, disse, certa vez, que são os que menos possuem os que mais costumam dividir.
E há, perdoem-me ainda mais os que das ciências entendem, relação de perfeita intimidade entre a solidariedade e a humildade. É esta a virtude que encontro, por exemplo, nos que acorrem a ajudar em operações de busca de vítimas de catástrofes, desbarrancamentos, quedas de barreiras e de barrancos, alagamentos, sobreviventes ou não, que muitas vezes sequer conhecem e que brindam à vida com a satisfação interior de ajudar. Os prepotentes, os orgulhosos, os vaidosos, não conseguem chegar perto, não metem a mão na massa nem enfiam na lama os pés bem calçados em caros sapatos. Talvez porque pensem que haverá os que fazem em seu lugar. Afinal, é como também se comportam diante dos que, com placas na mão, gritam em surdina nas ruas a fome, a sede e o abandono a que estão entregues. Aqui mesmo, no tempo mais grave da pandemia, com hospitais lotados e filas enormes de pessoas em desespero, por criminosa e desidiosa falta de oxigênio nos aparelhos que deveriam ajudar na respiração, muitos foram os exemplos dos que dobraram e até triplicaram plantões nos hospitais, desde médicos aos mais simples servidores da Saúde, igualmente escondidos no anonimato da solidariedade e, com humildade, não saiam a proclamar o quanto se haviam dedicado à minoração das dores e dos sofrimentos de quem sequer conheciam. E é assim que se dá todos os dias com esses anjos, que fazem guerras em favor da vida.


Nesta semana, procurando leituras que não estivessem a falar da violência urbana nossa de cada dia, deparei-me, no grupo denominado “Bezerra de Menezes, um médico de Deus entre nós”, no Facebook, com um relato que Alcedino Calabria intitulou de “O Dia em que um Preto Velho foi expulso de um Centro Espírita”, dizendo o autor tratar-se de uma história verdadeira, ocorrida em cidade do Interior de Minas Gerais, há algum tempo. Absolutamente longe de mim a mais mínima ideia de qualquer debate, menos ainda de embate, com os que não creem, nem mesmo com aqueles que, como eu, acreditam. Trago o exemplo exclusivamente para tratar de humildade.


Encontravam-se médiuns reunidos em um Centro Espírita em sessão de doutrinação e estudo, quando se deu a incorporação de um preto velho, naturalmente reconhecido por sua linguagem e que de logo foi convidado a retirar-se, “pois os dirigentes consideravam que os pretos velhos são espíritos não muito evoluídos”, não podendo, portanto, participar de reunião daquela espécie. “O espírito foi então convidado a se retirar do centro. O preto velho fez o que eles pediram e foi embora”. Em seguida, deu-se a incorporação do espírito de um filósofo “de nome difícil, provavelmente europeu”, que se pôs a transmitir ensinamentos e que foi ouvido com profundo respeito e absoluta consideração, deixando felizes e maravilhados todos os que o escutaram com acatamento.

Preparando o encerramento dos trabalhos, o presidente da Mesa foi novamente surpreendido pela incorporação do preto velho e, diante da insistência e até à vista dos ensinamentos que acabara de receber, concordou com a manifestação, desde que fosse ligeira. E o preto velho anunciou, em sua própria linguagem, que o doutor a quem todos ouviram com tamanha atenção, mais não era que ele próprio. E afirmou: “engraçado isso, meus irmãos, pois quando apareci como preto velho fui praticamente expulso dos trabalhos por vocês. Mas depois, quando apareci no formato de um doutor, um filósofo europeu prestigiado, que tem conhecimento acadêmico, com toda pompa e com ar de autoridade, todos me trataram muito bem, ouviram meus conselhos e ficaram felizes e maravilhados com a aparição.”


Ter-se-á feito, por certo, um choque profundo entre os que ali se encontravam e que, cilentes, ouviram que “as aparências existem apenas aqui na terra. Deus, em sua sabedoria infinita, oculta aos vossos olhos as verdades do espírito camufladas pelas aparências do mundo, para que vocês aprendam a vê-las com os olhos do coração, com a visão da alma e possam enxergar a verdade como ela é”. E concluiu os ensinamentos dizendo: “o que importa de verdade é ser simples e verdadeiro, ser honesto e ter caráter, ser caridoso e ter o amor de Deus no coração”, porque de cada um será cobrado, na volta para casa, quanto de luz espalhou pela Terra, “quanto tocou o coração dos outros com justiça e benevolência e o quanto a sua obra foi pautada no amor e na paz”!

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