Dia de luto

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas


14 de janeiro é data que não se deve esquecer, por marcar, de forma trágica, a história da saúde no Amazonas. Foi, há um ano, o dia em que se fez escuro e não houve canto, mas choro e gritos incontroláveis de dor ecoando em todos os pontos onde havia leito de hospital, lugar criado para tratar doentes, em busca permanente de garantir a vida, incansável como só os profissionais da área sabem avaliar.


E, peço que o leitor desculpe a primariedade da afirmação, a vida de todos os seres, mesmo dos vegetais, depende diretamente de um elemento chamado oxigênio. Disso até as crianças sabem, mesmo sem se aperceberem que lhes é essencial desde o primeiro segundo no mundo exterior ao ventre materno. Com ou sem a palmada por tanto tempo usada por parteiras, todas de enorme valor sobretudo nos lugares onde não há clínicas ou médicos obstetras, se não houver o ar para respirar, não haverá o choro no instante do nascimento, à falta de alimentação do aparelho respiratório. E não haverá vida. Perdoem-me os médicos, os enfermeiros, as parteiras e todos os profissionais do setor se a tanto me atrevo, eu que sou apenas advogado. Mas estou falando do ar, gratuitamente posto pela Natureza à disposição dos que vivem.
É ele – uma das poucas coisas sobre as quais ainda não inventaram a cobrança de impostos, taxas ou contribuições de melhoria – que faz funcionarem nossos pulmões, nosso coração e até nosso cérebro, e sua carência, mesmo que por minutos, pode gerar lesões irreparáveis e, se persistente, levar a óbito, expressão que tanto se tem ouvido nestes tempos. Numa palavra: o homem, como a planta e como qualquer outro animal, tem no oxigênio importância capital para a vida.


Pois bem, para quando o aparelho respiratório humano enfrenta deficiência de alimentação, a Ciência dos homens criou, e renova constantemente, em forma de aprimoramento, medicamentos de desobstrução das vias respiratórias, desde a entrada pelas narinas, até os brônquios e os pulmões propriamente ditos, estes que se pode chamar de caixa de ressonância de todo o sistema, hoje até passíveis de transplantes, tal o avanço do Conhecimento, tal sua importância para a vida humana.


Para quando os remédios não conseguem diminuir, e até vencer, as dificuldades de alimentação orgânica por via do oxigênio, o Homem criou aparelhos que, ligados à corrente elétrica e a fios distribuídos sobre o corpo de quem precisa, se destinam a suprir a deficiência de introdução de ar nos pulmões. São os chamados respiradores, condutores de ar para o interior do organismo sobretudo de pacientes em unidades ou centros de terapia intensiva. Uma espécie de respiração artificial ou de reforço, em maior ou menor escala, à natural.
É óbvio que não estou a tratar do ritual dos apreciadores de vinho que fazem uso do olfato para apreciar, e julgar, a qualidade da bebida que pretendem ingerir. E porque deles não cuido aqui, não me reporto à possibilidade absurda, inadmissível, esdrúxula, e talvez só visto em conto de fadas ou em Zona Franca, de comprar respiradores em lojas que vendem a bebida, dos deuses para muitos. Há empresas, sérias como todas deveriam ser, aliás, especializadas na venda de equipamentos médicos, assim como se dá no campo da odontologia, por exemplo, e eu, que comprei 165 consultórios odontológicos para a Universidade do Estado do Amazonas, quando lá estive como reitor, não consigo imaginar adquirir tais equipamentos, altamente especializados, em loja de vinho. Nada tenho contra o setor, mas creio que cada um no seu quadrado, como se diz agora, é a recomendação, sobretudo quando se tratar de uso de dinheiro público e, mais ainda, de cuidar da saúde e da vida humana.


De outro ponto, como se para coroar o absurdo, parece que os responsáveis pela saúde pública no meu Estado não se deram conta de que o crescimento diário de novos casos dessa doença pandêmica que já nos perseguia desde o ano anterior, como ao mundo inteiro, levaria a exigir maior ocupação de leitos, inclusive de UTI, e, por consequência, crescente necessidade de oxigênio, mesmo para os equipamentos regularmente compatíveis, os que nada têm a ver com vinhos ou qualquer outra bebida de teor alcoólico. E mais: o fornecedor exclusivo desse elemento indispensável à vida humana acendeu a luz amarela avisando de sua incapacidade técnica de produzir e entregar, em dias próximos, o que ao Estado vendia, e continua a vender, por limitação natural de suporte de suas máquinas. E aí, quando começou a escassez, ter-se-á criado, provavelmente, o maior dos sofrimentos para profissionais de saúde no interior dos hospitais: escolher a quem atender, sabendo que outros morreriam. Justo eles que dedicaram suas vidas, e dedicam, a salvar vidas.


Nada se fez, mesmo que se estivesse a discutir em conjunto de palestras oficiais, pagas com dinheiro do povo, a utilidade de usar medicamentos costumeiramente indicados para doenças outras. Houve até técnicos de Ministério que nos visitaram para fazer pregações transmitidas pelos veículos de comunicação social.

E foi tal a incúria, o desleixo, o descaso, o descompromisso, o desvio de atenção, para dizer o mínimo e ficar só na atenção, que no 14 de janeiro de 2021 Manaus assustou o planeta com a morte de centenas de pessoas que deixaram de respirar porque ar não havia nos aparelhos, enólogos ou não, nelas instalados. Outros, nem aos aparelhos tiveram acesso. Morte por sufocação, por asfixia, por falta de ar para respirar. Na maca, na UTI ou na calçada. Pura barbárie!


Muitos nem chegaram a entrar nos hospitais, nas casas de saúde, nos pronto socorros, mesmo que agonizantes, porque não havia como socorrê-los. E em desespero inimaginável, para si e para os seus, terminaram suas vidas nas calçadas, sem nem mesmo ter direito à dignidade do que se chama de último suspiro. Não respiraram e morreram ali mesmo.


Terá sido como se as piras da Idade Média tenham ressurgido, só que desta feita não para começar a queimar externamente, mas como raios fulminantes que nem os campos de concentração conheceram.


Decorrido um ano, nenhuma punição, mesmo que publicamente sabido os que não cumpriram seus deveres.


Com todo respeito às vítimas dessa incúria e com minha solidariedade a suas famílias e a seus amigos, digo, em grito de revolta: 14 de janeiro é dia de luto no Amazonas.

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