CONVERSA COM MEU PAI

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

Era setembro de 1889, parte do Brasil fervilhava com o movimento que terminou por conduzir Deodoro a proclamar a República, e a 25, na Bahia das areias alvas de Itapuã e, depois, do santuário do Senhor do Bonfim, vieste a este mundo, pelas mãos de Lourenço e Justina Rosa da Conceição, e, na pia batismal, recebendo o nome de teu pai, te tornaste Lourenço da Silva Braga Filho, nome que depois deixaste de usar ao argumento de que “não há filho sem pai”. Bem criança, por força de coisas que a vida apronta para muitas vezes nos surpreender, vieste parar nesta Manaus dos trópicos, talvez porque a ti estivesse reservado o privilégio de viver a “belle époque” da floresta e aqui ficaste até empreenderes, 97 anos depois, a volta para casa, a chamado de Deus.


Menino ainda, apenas com 9 anos, a vida te obrigou ao trabalho em busca do sustento e te impôs a solidão da orfandade, mas por certo tua origem lusitana te impedia de desistir e te fazia desbravar caminhos em busca do Conhecimento e assim foste moldando tua personalidade, construindo teus próprios valores a partir do binômio observação e análise, e foste escolhendo caminhos, levantando de tropeços, enfrentando doenças e às vezes conseguindo desviar-te delas. Viste a gripe espanhola, a primeira e a segunda guerra mundial, viste outras pestes, mas desde cedo desenvolveste a fé em tua Calunguinha, como chamavas a imagem de Nossa Senhora de Nazaré que tiveste na mão, em madrugada trágica de 1948, quando o navio em que trabalhavas, o Manauense, incendiou em meio à baía de Marajó, na frente de Belém. Não foste um fanático religioso, mas cultuaste acendrado respeito a um Deus a quem recorrias, por certo, em momentos de dificuldades maiores, que não hão de ter sido poucos. Até hoje rezo as orações que me ensinaste com paciência franciscana.


Certa feita, já adulto, estavas em um hospital na capital paraense, tomado de uma fraqueza que te fez demorar mais de hora para atravessar a rua e chegar ao salão do barbeiro, frontal ao hospital, e ouviste o médico falando ao enfermeiro que te submeteria, no dia seguinte, a uma cirurgia para retirada do apêndice, procedimento que, sabias, estava começando a ser testado ali. Sem que o enfermeiro percebesse, foste ao posto de enfermagem e te aplicaste uma injeção de Terebentina, que te fez ser encontrado, na manhã seguinte, com temperatura superior a 40 graus de febre, o que levou o doutor a suspender a cirurgia. Fizeste bem, porque viveste o resto de tua vida, mais de 50 anos, sem sofrer apendicite. Nesse hospital, conversavas na enfermaria com outros pacientes e, de repente, foste à janela e cuspiste.

Sabias que não era correto, mas fizeste. Para tua pouca sorte, por ali passava a freira italiana que dirigia o nosocômio e que, momentos depois, foi à enfermaria perguntar quem fora o “sem-vergonha” que cuspira da janela. Com a coragem de um baiano e a sinceridade que se fez marca de teu caráter, respondeste: “se foi homem, fui eu, se foi mulher, foi você, que somos os dois sem-vergonhas que aqui existem.” Pronto, foste expulso do hospital e retornaste para Manaus, mas não reconheceste nela o direito de te ofender.


Casaste com Izabel e com ela tiveste três filhos: Altacir – o Braguinha do Colégio Estadual, chefe de disciplina que conseguia a proeza de ser respeitado pelos alunos –, Altamir, dedicado e probo servidor da Secretaria da Fazenda, Coletor de Rendas no Interior do Estado, e Altair, nascido em parto complicado que terminou por resultar na morte de sua mãe e que hoje seria chamado de deficiente, por doença não diagnosticada na época de recursos científicos parcos, mas que, apesar do desenvolvimento mental e motor comprometido, era, na verdade, mais que um especial, que durante 40 anos esbanjou amor e ensinou a simplicidade, com palavras e gestos sempre ditados por seu coração extremamente bondoso e puro. Era nosso orgulho!


Depois, namoraste a normalista Sebastiana, menina tímida que encontravas diariamente no bonde dos Bilhares, que passaste a usar em horário compatível com o término de suas aulas na Escola Normal, provavelmente de propósito, e com ela terminaste por constituir nova família, a partir de casamento convenientemente autorizado por dona Maria Wanderley, sua irmã mais velha, com quem morava. Diplomada, com elogios registrados por vários de seus professores, como Adriano Jorge, Waldemar Pedrosa e Agnelo Bittencourt, tua noiva foi trabalhar no lago do Janauacá, em escola simples, de madeira, sem energia elétrica e, claro, sem qualquer recurso pedagógico de apoio, além de um quadro negro preso à parede e que era possível usar quando havia giz. Enquanto isso, teus três filhos moravam contigo em casa da Marcilio Dias, a mesma rua em que irias ajudar a criar, depois, a Casa do Trabalhador. Com Sebastiana tiveste João, José, Maria Justina, eu, Ana Maria e Robério. Soube depois que quando me foram batizar a tua Sabá queria que eu fosse Lourenço da Silva Braga Junior, o que não se consumou porque disseste necessário que eu tivesse também o nome de minha mãe.

Eras assim.


Foste poeta, jornalista, líder de tua categoria profissional, presidindo o sindicato por mais de década. Foste Vereador, nos idos de 1935, e tal como João e Robério, que também tiveram assento à Câmara Municipal de Manaus, não te demoraste na política pública, por puro desencanto. Hoje repetirias, como disseste várias vezes em relação a muitos fatos: mudam os palhaços, o circo é o mesmo.


Foste orador como poucos e o domínio da palavra encantava mesmo quando escrevias os discursos que nós devíamos pronunciar nas festas escolares. Cultor da Língua, eras quase um seiscentista.


Em tuas viagens ao interior do Estado, que passou a ser tua vida como comissário de bordo nos navios a vapor, depois de haveres sido cozinheiro, eras líder natural, como pude constatar nas duas vezes em que fui contigo pelo rio Purus, até Boca do Acre. Impunhas-te ao respeito com uma doçura incomum e chegavas a ser meigo quando te vias obrigado a reprovar a ação de qualquer de teus auxiliares. Era assim também conosco.


Foste um líder, incontestavelmente, mas a maior liderança que me imponho considerar tu a exerceste como pai. Educaste com exemplos, e por isso nem precisavas pronunciar palavra para nos mostrar nossos erros, teu olhar bastava. Tua retidão de caráter fazia previsível todas as tuas reações e quando nos reprovavas apenas uma das sobrancelhas erguida bastava para nos mostrar o erro.


No 25 de setembro de 2021, 132 anos depois de tua vinda para esta parte do universo, quedo-me genuflexo aos pés de Deus por te haver dado como meu pai e te parabenizo, beijando teu espirito, tomado de orgulho.

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