ANO DE ELEIÇÃO

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

A política brasileira tem uma prática – até possível de não ser privativa, tupiniquim, que afinal em outras paróquias pode haver igual – do que se poderia chamar de compra de consciência do eleitor, capaz de se assemelhar à proibida “compra de votos” em dia de eleição, que inclusive já tem produzido prisões em flagrante, em capitais e em cidades do Interior. Em ano de eleição, seja para cuidar de sua própria manutenção no poder, seja para “eleger escolhidos”, há governos que costumam passar a operar com eficiência que não se vê em outro tempo de mandato e formas de “benesses” passam a ser criadas e implantadas com velocidade admirável.


Não costuma ser de pouco uso a expressão “eles aparecem aqui de 4 em 4 anos”, que os mais inconformados proclamam quando pelo menos voltam a ouvir promessas de serem beneficiados com algo de que terão sido privados nos anos e meses anteriores, mas também é fato que a pobreza extrema, que os governantes nem procuram diminuir, menos ainda extinguir, parece não incomodar muito os dirigentes a ponto de os estimular a criar políticas públicas verdadeiramente hábeis a enfrentá-la.


É cíclica, e tão antiga quanto a atração da força de trabalho para as cidades, com o abandono da vida no campo, a ocorrência, por exemplo, de desastres ambientais que matam, desalojam, destroem casas e sonhos, como se dá nas quedas de barreiras, no desbarrancamento de encostas, à falta de contenções estruturais, obras e serviços de engenharia que o avanço considerável do Conhecimento nessa área certamente indicaria formas e fórmulas de enfrentamento. De igual sorte, políticas habitacionais sérias e não oportunistas poderiam, por certo, contribuir. Afinal, é razoável admitir que ninguém mora em área de risco, iminente e permanente, por mero diletantismo ou por desejo deliberado de desafiar a mãe natureza. É provável que quatro anos de mandato, somados a igual tempo concedido pela reeleição, pudesse contribuir, de verdade, para o enfrentamento de questões que tais. Não é o que se dá, entretanto, talvez por falta de compromisso verdadeiro com a chamada “coisa pública”.
Curioso é que quando chega o ano de reeleição, sobretudo esse, o denominado “poder público”, como em passe de mágica, começa a tirar da cartola “soluções” mirabolantes, nascidas em sobrevoos de áreas atingidas, em entrevistas coletivas impregnadas de promessas e até em críticas a práticas governamentais que parecem esquecer os anos do próprio mandato que já se foram e que mantiveram a inércia e a indiferença.
Prefeitos há que quando desejam ser reeleitos passam a espalhar asfalto pelas ruas, embelezando-as, ainda que sem qualquer segurança de tratamento do solo, o que me faz presumi-los conscientes de que tudo aquilo é mero enfeite, de duração efêmera. Mas cumprem a histórica assertiva de que asfalto dá voto. As primeiras chuvas que se seguirem levarão embora a massa negra do piso e as crateras retornarão exatamente para que o cidadão morador dali volte a precisar da atenção do governante.


É assim na Saúde. Em ano de eleição, horário estendido de atendimento, mesmo que em muitos casos os servidores nem sejam convenientemente remunerados, enquanto em anos outros, quando a caça a votos está quieta, seja possível até que falte oxigênio em hospitais públicos, nas unidades de tratamento intensivo onde, obviamente, o ar para respirar é elemento essencial ao tratamento de pacientes.


Também é assim na Educação. No ano par de escolha de governantes, há uma correria desenfreada para realizar serviços de pintura que tornem as escolas “mais bonitas”, mesmo que se construam banheiros para deficientes físicos por cuja porta não entre uma cadeira de rodas, mesmo que se tenha uma escola com 10 salas de aula para atendimento de crianças de até 8 ou 10 anos de idade onde não exista fossa (porque esgoto não há) e os dejetos sejam conduzidos e a um “lago” próximo onde eventualmente os alunos brincam, e até se banham, ou cozinhas com ralos no piso por onde a água servida retorne, ao invés de escoar, tudo que é exemplo do que encontrei como Secretário da Pasta, com a tristeza de constatar que em cada caso tinha havido a festa de inauguração, com direito a discurso e a descerramento de placa justo e coincidentemente em ano em que os eleitores seriam convocados a votar. Talvez porque nos outros três ou sete anos não tenha dado tempo de fiscalizar ou avaliar as obras.
Há vezes em que alguns ônibus novos são incorporados à frota de transporte coletivo, em ano de eleição, além dos que são meramente maquiados externamente, embora continuem a não oferecer a segurança desejada. E, em Manaus, há sempre a promessa de alternativas outras para o trânsito caótico da cidade, e os brt’s da vida não passam de meras palavras em discursos de palanque ou de entrevistas.


Por tudo isso, e por tudo o que não disse aqui porque fartamente sabido pelo leitor, ouso afirmar que ano de eleição é tempo de magia, de condução ao sonho, de promessas que podem, muitas, ser inscritas na famosa “terra do nunca”.

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