QUERO COMER

Por Lourenço Braga, do Instituto Geográfico e Histórico do Amazonas

O mundo, sobretudo o lado ocidental, enfrenta crise econômica bem grave, dizem as notícias de todos os cantos, e no Brasil não se dá diferente, com inflação crescente, ameaça de deflação, desemprego que não se submete a controle, desvalorização de nossa moeda outrora segura, e tantos outras dificuldades que a tudo isso se juntam: salários congelados, perda de poder aquisitivo, demissões, miséria e aumento expressivo da quantidade daqueles que vivem no que os técnicos chamam de abaixo da linha de pobreza. 

Resultado da pandemia, que impôs freios ao desenvolvimento da Economia, em todos os quadrantes do planeta, dirão alguns, má gestão pública, proclamarão outros, dentre os que se dispõem a analisar politicamente a questão, e há até os que não divisam luzes em horizonte próximo. Mas isso tudo é assunto para os economistas, os teóricos e os servidores do Ministério da Fazenda, do Banco Central, da Receita Federal e é, certamente, de interesse para debates no plano acadêmico. 

Leigo, não me atrevo a discutir e me quero restringir, pelo menos aqui, ao que encontro diariamente nas ruas, como retrato vivo e indiscutível deste tempo de dificuldades. Atenho-me a Manaus, onde só cresce a quantidade dos que pedem, esmolam, mendigam em todos os cantos, muitos concentrados sob os semáforos, e agora com uma novidade: em cartazes feitos de papelão põem-se diante dos carros que obedecem a determinação de parar, por tempo curto, creio que por saberem que de nada adiantaria falar, eis que os vidros fechados para garantir a refrigeração interna dos veículos não permitiria fossem ouvidos. 

Alguns dizem querer trabalho, outros pedem uma ajuda e muitos até trazem no colo crianças de tenra idade, filhos ou não, parentes ou não. Deprimente, de verdade, e mais ainda quando alguns ajoelham no asfalto quente exibindo a súplica.

Verdade que muitos há que não dispõem de condições de ajudar, mas é certo também que existem os que defendem opinião, ou tese, no sentido de não ser correto dar a esmola, e espero que seja menor os que a tudo assistem com indiferença, que tenho por desumana. 

Mas também não tenciono polemizar essas crenças, porque desde cedo aprendi a respeitar todas as opiniões e formas de ver o mundo e suas contradições, justo por crer que é assim que a Humanidade avança. Sei da sensibilidade do tema. Mas hoje, dirigindo-me ao restaurante para almoçar, onde estou escrevendo, li um cartaz de um jovem que pode nem ter chegado ainda aos 10 anos de idade, que se pôs diante de meu carro com esta mensagem: QUERO COMER. Não sei se o que lhe entreguei materialmente é capaz de atender seu pedido, e por quanto tempo, porque também não sei se estava sozinho naquele lugar, mas acredito que terá sido esse menino, que se chama Pedro, segundo me disse, que me terá inspirado a escrever, em certo momento, a quase poesia que hoje trago para este canto, assim: 

UM RESISTENTE

Sentou na fria calçada

sem saber o que fazer:

em casa não tinha nada,

nem um pão para comer;

não dava pra ir à aula

a escola estava em greve,

prometeram para breve,

não conseguem resolver

luta de seus professores,

em meio a muitos pudores,

pelo direito de viver.

Aí não tem merenda,

não tem arroz nem feijão,

não dá pra entrar no colégio,

trancaram até o portão,

o jeito é esperar quem entenda,

que lhe estenda a mão,

pra não ter que disputar

com quem não pode estudar

um espaço no lixão.

Ali perto, um restaurante

onde sentam para almoçar,

aproveitam pra conversar,

pessoas muito importantes

que devem chegar em instantes

até se vão demorar

comendo, bebendo e brincando,

parecendo comemorar.

É casa fora de alcance

onde nunca vai entrar,

mas a parede é de vidro

de sorte que, com cuidado,

sempre é possível espiar,

quem sabe um desavisado

termine por perceber

e possa dar ao coitado

um pouco do que comer.

Ontem uma senhora,

parecendo apiedada,

jogou pela porta a fora

uma moeda de esmola

e voltou a degustar

carne, peixe ou faisão,

que já acabara de dar

bastante pra compra de pão.

Mostrou-se em paz e contente,

em meio a tanta gente

fizera sua boa ação.

Mas hoje não estava lá

pra socorrer o menino

de pele escura, franzino,

que se negava a tirar

o que não lhe pertencia

inda que terminasse o dia

sem de novo se alimentar.

Talvez sua mãe conseguisse,

no metrô ou na estação,

e com ele dividisse

pedaço único de pão.

Não se atreve a roubar,

como ensinaram seus pais,

também não será avião

forma de ter um trocado,

porque nisso, além do mais,

acabaria enredado,

quem sabe até viciado

como se deu com amigo

que seguindo rito antigo

encontrou o fim da vida

em bala dita perdida.

Ele não, jamais terá

vida de marginal,

quer estudar e crescer

sem precisar fazer mal.

Apenas um resistente

da vida louca da gente.

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